Série Cantoras da Ilha – Dicy Rocha
agosto 29, 2010 por
André Lisboa 
Quero mostrar a dor e a alegria, esses dois sentimentos que com a música dialogam sempre. Há tudo, as dores que foram transformadas em música, em poesia…
A serenidade espalha-se imperativamente pelo ambiente onde está quem ouve a melodiosa e mansa voz da cantora Dicy Rocha. Quando ela canta, parece sim, todos calam. Os improvisos são constantes. Há preocupação com a poesia. A vontade é grande. Ainda sem muito estudo musical, o canto precisa de mais força e mais persistência. A segurança vem de reconhecer a constante necessidade de evolução. Aos 31 anos, conhecidas pelos artistas e rueiros da noite ludovicense e já premiada como melhor intérprete do 11º Festival Universitário de Reggae (Unirregae) e pelo III Festival João do Vale da Música Popular em 2008, Dicy guarda uma presença forte no palco, que se reflete em suas palavras. Com uma carreira iniciada ainda quando adolescente em Coroatá, sua cidade natal, ela, desertora da Engenharia Civil e radicada na Ilha, é a personagem inicial da série “Cantoras da Ilha”, que se inicia hoje no caderno Alternativo, com uma perspectiva de correr São Luís para retratar um pouco vida e do trabalho das novas e das consagradas intérpretes. Dicy Rocha vai apresentar sexta-feira, 3 de setembro, no Odeon Sabor e Arte (Praia Grande), o show Negra Melodia, marcado pela pessoalidade, pela improvisação.
Por que a escolha da música para se manifestar?
Dicy Rocha – Eu acho que eu não escolhi a música. Acho que foi ela que me escolheu. Eu não consigo separar-me dela de jeito nenhum, porque eu tenho uma relação muito íntima com a música. Antes de pensar em apresentar para outras pessoas, de apresentar-me no palco, eu sinto ela muito próxima de mim. A minha infância foi toda muito musical. Nossos somos um povo muito musical, pois nossa oralidade é muito rica. Eu cresci ouvindo histórias por meio de músicas que minha avó criava. E as histórias infantis são assim todas carregadas de muita oralidade. Fora que no interior do estado onde eu nasci e me criei todas as figuras que eu me recordo tinha muito de musicalidade. Como figuras, refiro-me às pessoas do dia-a-dia, do seu Francisco da quitanda às pessoas de casa como minhas tias, minha avó. Além disso, houve muita a influência do meu pai e da minha mãe. Sempre ouvi muita coisa vinda deles. Com os vinis do meu pai, meio que fiquei um pouco protegida da influência dos grandes veículos de comunicação. Neles havia muita coisa boa. Depois de um tempo apareceram alguns convites, passei a subir no palco. Contudo, o início foi na igreja. Eu sempre me expressei por meio da música, porque eu sempre fui muito tímida, principalmente na infância. Então, não dizia nada, mas estava ali cantando.
E como foi a transição da igreja para o palco?
Dicy Rocha – Foi, na verdade, por meio de um convite de um amigo muito querido, que é o cantor Wilson Zara. Na época, eu cantava com minha irmã e uma amiga. Zara nos convidou para assumir os vocais no Tributo a Raul Seixas, organizado por ele. Depois desse show, eu e minha irmã Jovenilde Rocha começamos a pensar na possibilidade de cantar pela noite e, assim, a montar um repertório. Com essas idéias, montamos o grupo Flor de Cactos, que durou 10 anos e foi um período marcante da minha vida. Era um trio feminino, no qual a gente cantava muito samba, muita bossa. De Coroatá, nós viemos para São Luís e passamos muito tempo. Agora, que eu comecei “a minha Dicy”, colocando em prática as coisas com as quais me identifico.
Pode-se ver que hoje em dia as cantoras tem primado por diálogo com a música tecnológica, utilizando de muitos efeitos, o que há de moderno dentro da música que você canta?
Dicy Rocha – Na verdade, eu não estou muito moderna não, sabe (risos). Até os samplers (efeitos comandados por um DJ), que “invadem” os intervalos do repertório do show que tenho montado, saem direto do vinil. Essa é uma parte que eu considero muito bacana da apresentação. Eu sempre curti muito o som do vinil. Quando conheci o Joaquim (Zion), DJ, eu voltei a rever muita coisa dentro desse universo meio perdido. Há muitas coisas que ainda não foram remasterizadas. Muita música e registro em vinil, que não tem no formato de CD. Uma das minhas felicidades em apresentar o show “Negra Melodia” é a presença constante da poesia. No show, os samplers apresentam poemas de Vinícius, de Drummond e outros e eles estão todos interligados. Tem sido algo incomum, que tem levantado muitos elogios do público. No show, há muita continuidade. Os poemas impedem as paradas, os cortes. No palco, é começo e fim de repente. O bom é que ainda tem muita coisa a se apresentar. Aos poucos a gente vai apresentando mais. O repertório faz parte de uma pesquisa pessoal que tenta reunir algumas cantigas do Maranhão. Cantigas de lavrador, de lavadeiras, de gente simples mesmo. Eu comecei com essa história em casa, no quintal. Comecei a pegar umas canções pelas quais eu me apaixonei, mostradas por minha avós. Músicas que eram cantadas durante a caminhada para a roça e que eu achei que tinha muito do meu trabalho, do que eu queria mostrar no “Negra Melodia”. Entre os poemas do vinil e as outras músicas, há essas cantigas maranhenses.
E quanto ao papel da cultura negra em sua música?
Dicy Rocha – Acho que é um dos traços mais fortes na minha música. Não foi algo que eu pensei: – Ah, eu vou por esse campo a partir de agora. Acho que agora é o que sinto necessidade de expressar. Até porque eu me identifico e ouço muito. Gosto muito dos ritmos africanos. A nossa música tem todas as ligações possíveis com a raiz africana. Acho que todos ritmos que eu ouço no Maranhão tem um pouco. Na música de Cabo Verde, no dialeto crioulo, no zouk, eu sempre vejo e digo: isso aqui é a célula de um ritmo maranhense. Do tambor de crioula, ao terecô de caixa. Cada vez mais eu vejo o quanto estamos ligados a nossa origem. Não tem como está. A temática de show por si só é bem negra porque gosto de fazer essa ênfase. Quero mostrar a dor e a alegria, esses dois sentimentos que com a música dialogam sempre. Há tudo, as dores que foram transformadas em música, em poesia…
Hum hum… eu sou saliente mesmo (risos). Eu tenho esse cuidado sempre tentar colocar uma cara minha no trabalho. Acho que para todo intérprete essa é uma perspectiva”
Em suas apresentações, há muito improvisações…
Dicy Rocha – Hum hum… eu sou saliente mesmo (risos). Eu tenho esse cuidado sempre tentar colocar uma cara minha no trabalho. Acho que para todo intérprete essa é uma perspectiva. Eu canto a música que eu gosto muito. Tento levar ao show, o que eu faço em casa. Pego uma canção e fico cantando durante o dia, diversas vezes. A improvisação era um trabalho desde o início, desde o Flor de Cactos. Onde nós fazíamos muita coisa bacana, porque a gente sempre foi muito livre. E nesse novo trabalho, também me sinto muito bem ambientada e tudo é muito próximo, o que me possibilita improvisar sempre. Tento sempre imprimir algo que tenha a ver comigo dentro das minhas possibilidades. Às vezes, funciona, outras vezes não. Mas as pessoas já percebem: isso aqui foi você quem fez, não é? E isso é muito significativo. Acho que meu canto é muito simples. Ainda não tive a oportunidade de estudar canto, mas acho que um problema que vou enfrentar é essa vontade de sempre querer colocar a minha cara no trabalho que faço, porque pesa sempre a questão das regras etc. Contudo, quando for estudar, vou priorizar o que me deixa mais livre.
Ouça
http://myspace.com/dicyrocha
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Entrevista completa da Série Cantadoras da Ilha, do caderno Alternativo, do jornal O Estado do Maranhão (@OEstadoMA)