2 de fevereiro de 2009
manoel rubim da silva
“Não há glória sem sacrifício”
Caso raro de negro que assumiu posto de chefia no alto escalão da máquina pública, o ‘xerife’ da Receita diz que a vitória tem mais sabor quando vem com dificuldades
Décio Sá
Da equipe de O Estado
O ex-servente do TCE (Tribunal de Contas do Estado) Manoel Rubim da Silva é um caso raro no Maranhão de pessoa da raça negra que conseguiu, pelo talento, estudo e dedicação, chegar onde raramente só se vê brancos.
Aos 51 anos, o menino pobre do Retiro Natal, contemporâneo do músico Roberto Rafa e do poeta e sambista Antônio Vieira, é hoje o responsável no Estado pela arrecadação de R$ 420 milhões anuais aos cofres da Receita Federal.
Delegado da Receita Federal em São Luís, com jurisdição sobre todo o estado à exceção da região sul, é responsável pelo recolhimento do Imposto de Renda de cerca de 1 milhão de maranhenses e 100 mil empresas.
Sobre o trabalho diz não ser fácil. “Nosso cliente é o contribuinte e nossa mercadoria ninguém compra com prazer: imposto”. Desde que assumiu o posto, há um ano e quatro meses, houve um incremento em torno de 30% da arrecadação no Maranhão. | 
De origem humilde, o representante do ‘Leão’ no estado, Manoel Rubim, começou a trabalhar aos 13 anos |
Brincalhão, o homem que representa o “Leão” no estado diz, numa referência a episódios racista de que já foi vítima, que “só fica zangado quando ofendem a Princesa Isabel”. Manoel Rubim da Silva nasceu, cresceu e ainda mora no bairro do Retiro Natal, muito confundido com o Monte Castelo. “Ainda não consegui me desvencilhar do bairro”, explica.
É filho do mecânico Ovídio Victor da Silva (já falecido) e da dona de casa Cândida Rubim da Silva. Tem duas irmãs e um irmão. Solteiro, é pai da estudante Emanuele de Fátima Rubim da Silva, 15 anos.
EDUCAÇÃO - O delegado da Receita conta que teve uma infância recatada por força da educação imposta principalmente pelo pai. “Meu pai tinha um certo rigor e eu saía pouco de casa. Hoje até agradeço por isso.”
As únicas brincadeiras de que participava era jogar botão, criar passarinho e a tradicional pelada numa rua calçada com paralelepípedos. Como o pai tinha uma oficina mecânica em casa, começou a trabalhar cedo, aos 13 anos. “Não há glória sem sacrifício.”
Ovídio foi chefe da oficina mecânica da Prefeitura de São Luís na década de 50, se aposentando em 1958 para montar seu próprio negócio em sua residência. Além de consertar os carros, ele vendia peças. Foi a primeira loja especializada no ramo em São Luís.
“Eu comecei a trabalhar em 1963, aos 13 anos. Foi uma forma que meu pai encontrou para me chamar à responsabilidade. Naquela época não era ligado muito nos estudos”, diz Rubim. Ele conta que a mãe, natural de Icatu, teve de abandonar um emprego de professora municipal para cuidar da família.
Em relação aos estudos conta que viveu três momentos. Fez um primário muito bom, um ginásio nem tanto, voltou a se encontrar no segundo grau e fez um excelente curso técnico. Ainda participando do curso técnico de Contabilidade no extinto Colégio São Luís, o hoje delegado da Receita Federal conseguiu uma vaga de servente no TCE, em 1970.
“Tinha de trabalhar porque meu pai havia morrido - em 1968 - e precisava arcar com minhas despesas”, explica. Depois de concluir o curso técnico de Contabilidade foi aproveitado no órgão como técnico no setor que fazia inspeção nas prefeituras.
Do TCE recebeu um convite para chefiar o setor de contabilidade da então Secretaria de Segurança Pública. Ainda no cargo fez concurso para o Dasp (Departamento de Administração do Serviço Público), órgão do Governo Federal que fazia a contratação de servidores.
Devido à sua boa colocação no concurso - ficou em 1º lugar no Maranhão e em 2º no Brasil - foi chamado para trabalhar no Ministério da Fazenda. Assumiu o cargo em 1976, mesmo ano em que passou no vestibular da UFMA.
concursos - Depois de se formar em Contabilidade, passou em mais três concursos em nível federal, quase ao mesmo tempo, optando pelo de auditor fiscal da Receita. Em seguida foi aprovado para ser professor da UFMA.
Com apenas quatro meses na Receita foi convidado para ser chefe da seção de tributação no órgão. Foi galgando degraus na repartição até assumir em 2001 o cargo de delegado.
Rubim conta que estava preparando sua aposentadoria quando foi convidado para assumir o posto de delegado. “Só aceitei o cargo para mostrar que tínhamos pessoas capacitadas para conduzir a Delegacia.”
Ex-presidente do Conselho Regional de Contabilidade, Rubim representa atualmente o Conselho Federal da categoria na Associação Interamericana de Contabilidade com sede em Miami (EUA).
Ele conta que sua juventude foi normal. Curtiu os Beatles e se vestia como os ídolos da Jovem Guarda. “Nessa época também eu e alguns amigos montamos um grupo de estudo para discutir coisas do Brasil”, lembra.
Rubim se declara católico relativamente praticante. “Não vou à missa toda semana, mas rezo diariamente”, destaca. Diz ser dependente de esporte, principalmente da caminhada e da natação.
Afirma ter aprendido a nadar com o poeta e compositor Antônio Vieira, seu vizinho. Na juventude chegou a participar informalmente de um grupo musical do qual faziam parte, entre outros, Zé Márcio, Sadir, Paulo Trabulsi e Roberto Rafa.
Lê de quatro a cinco livros ao mesmo tempo. Apaixonado pela cultura popular maranhense, é também fã de uma seresta. “Não chego a ser um pé-de-valsa, mas adoro dançar.”
“Discriminação às vezes não se percebe”
Nem o fato de o Maranhão ser considerado o terceiro estado do país com maior número de negros livrou um integrante da raça a ser vítima de racismo no estado. Manoel Rubim conta que um dos episódios racistas de que foi vítima aconteceu em 1986. Ele tinha estacionado o carro na porta do Conselho Regional de Contabilidade para participar de uma reunião.
Na saída não conseguiu dar partida no veículo com problemas de bateria. | 
Vítima de racismo algumas vezes, Manoel Rubim diz que esses episódios não devem intimidar os negros |
Enquanto providenciava nova bateria, um perturbador das redondezas aproximou-se e disse que “isso era coisa típica de negro e a culpada era a Princesa Isabel”.
“Nem pensei. Dei-lhe um tremendo sopapo que o sujeito caiu no meio da rua”, conta. Em outra oportunidade o caso foi dentro de um avião. Ao procurar o seu assento no avião, a passageira ao lado surpreendeu-se de tal modo com um negro próximo ao seu assento que pediu para mudar de poltrona. “Minha surpresa não foi nem com ela, foi com a aeromoça que atendeu o pedido”, revelou.
Rubim diz, no entanto, que esses episódios não devem intimidar as pessoas da raça negra. “Isso não deve nos diminuir. A gente tem de passar por cima de tudo.”
Ele conta, porém, que muitas pessoas ficam satisfeitas ao ver que um negro chegou a um posto tão alto. “A vitória tem mais sabor quando vem com dificuldades, não de mão beijada”, declara. Ele se diz favorável à criação de cotas para negros no serviço público.
“É inegável que você vê a presença do negro em postos relevantes de forma minguada. Seria um fato normal? Eu acho que não! Isso é fruto de anos e anos de discriminação. A sociedade brasileira tem uma dívida com a raça negra e essa dívida precisa ser paga de alguma maneira”, afirma.
Rubim diz ainda não acreditar que o sistema de cota será o responsável pela ascensão da raça na sociedade brasileira. “Vai depender da conscientização do negro de ser igual aos demais. Mas, pela primeira vez, estamos vendo um governo preocupado com isso”, finaliza.
| Auto-retrato |
Nome: Manoel Rubim da Silva
Idade : 51 anos
Profissão: Auditor da Receita Federal e Professor Universitário
Filiação: Ovídio Victor da Silva (já falecido) e Cândida
Rubim da Silva
Estado Civil: Solteiro
Filha: Emanuele de Fátima Rubim da Silva, 15 anos
Mania: Leitura
Defeito: Falar demais e confiar muito nas pessoas
Qualidade: “Prefiro que as pessoas que me conhecem falem sobre isso”
prazer: Ver as pessoas satisfeitas
Indignação: Inveja
Planos para o futuro: Aposentar-se para se dedicar ao ensino e à pesquisa |